|
No início do século XX, na
região de Barra do Bugres (160 KM de Cuiabá), os índios Umutinas, um
subgrupo Bororo, eram conhecidos como “barbados”, pois usavam
barbas, na maioria das vezes postiças. Feitas com pelos de animais e
cabelos das índias da tribo, as barbas fortaleciam a imagem do
“macho”, da força indígena. Mas os tempos mudaram. Sem nenhum
compromisso com os rituais dos seus ancestrais, os novos
representantes Umutinas não fazem mais questão de usar as “barbas”,
não querem mais passar Jenipapo na garganta para engrossar a voz e
não se preocupam mais com a imagem do “homem”. Hoje, na “Barra”,
como é carinhosamente chamada a cidade, a coisa mais comum é ver um
índio homossexual.
Isso mesmo. Em Barra do Bugres, os
índios da antiga tribo “Barbados” estão se redescobrindo e assumindo
uma opção sexual não muito normal entre os povos indígenas. Neste
carnaval, com roupas justas, cabelos e unhas pintadas, bolsas a tira
colo e sem medo de serem apontados, os índios gays saíram de suas
aldeias e desfilaram nas ruas da cidade.
Alguns moradores parecem ter se
acostumados com a situação, mas os mais antigos deixam a mostra o
preconceito. “Já é uma vergonha homens que não honram as calças,
agora temos até índios gays”, esbravejou um conhecido bugrensse. “Eu
já estou acostumada, tem muito índio gay aqui em Barra do Bugres e
eles são divertidos, não vejo problemas em conviver com isso”,
afirma outra moradora da cidade, que com bom humor, ainda completa:
“Tem muita mulher preocupada em perder o marido aqui”, disse entre
risadas.
O preconceito dentro das aldeias é
o que mais chama a atenção e preocupa. O Umutina M.C.Y, de 17 anos,
conta que já foi agredido várias vezes por ser gay, até por irmãos.
“Não posso andar sozinho na tribo, já me batem, gritam, xingam. Meu
irmão até jogou pedra em mim”, revelou o jovem Umutina, que desde os
13 anos comunicou a família sobre sua opção. Para alguns
especialistas, o preconceito com os índios gays pode gerar mais
problemas sociais, como o alcoolismo, que já atinge grande parte das
tribos em Mato Grosso.
A comunidade indígena gay da
cidade do interior de Mato Grosso pode ser a primeira no estado, já
que a Fundação Nacional do Índio não apresenta nenhum registro de
homossexualismo entre os índios que vivem mato-grossenses. Mas
segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, há registros de
homossexualidade entre índios desde ao menos o século 19. Em Mato
Grosso, ele estudou os Cadiuéus, que chamavam o homossexual de
kudina, que significa: “que decidiu ser mulher”. No estado do
Amazonas, já foram detectados inúmeros casos de índios que assumiram
a homossexualidade e hoje também sofrem preconceito dentro e fora
das aldeias. |